Quando um trabalhador não consegue resolver seus direitos diretamente com a empresa, o processo trabalhista se torna o caminho para buscar o que lhe é devido. Seja por verbas rescisórias não pagas, horas extras não reconhecidas ou outros direitos violados, entender como funciona esse processo é fundamental para quem precisa recorrer à Justiça do Trabalho.

O processo trabalhista brasileiro segue etapas bem definidas, desde a entrada da ação até o recebimento dos valores. Conhecer essas fases, os prazos envolvidos e os documentos necessários ajuda o trabalhador a se preparar melhor e ter expectativas realistas sobre o tempo e os procedimentos necessários.

Documentos necessários e início do processo

O primeiro passo para iniciar um processo trabalhista é reunir toda a documentação que comprove a relação de trabalho e os direitos pleiteados. A organização desses documentos é fundamental para o sucesso da ação.

Documentos essenciais para o processo:

  • Carteira de trabalho (todas as páginas, mesmo em branco)
  • Contratos de trabalho, aditivos e acordos
  • Recibos de pagamento (holerites) de todo o período
  • Comprovantes de depósito do FGTS
  • Comunicações da empresa (e-mails, mensagens, avisos)
  • Documentos da rescisão (TRCT, guias, extratos)
  • Atestados médicos e documentos de afastamento
  • Planilhas de controle de ponto ou registros de horário

Com a documentação em mãos, o advogado elabora a petição inicial, que é o documento que dá início ao processo. Nesta peça, são descritos todos os fatos, os direitos violados e os valores pleiteados, sempre fundamentados na legislação trabalhista vigente.

A petição inicial é protocolizada no Tribunal Regional do Trabalho da região onde o trabalho foi prestado. Após o protocolo, o processo recebe um número e é distribuído para uma das Varas do Trabalho, onde tramitará até a decisão final.

Audiências e instrução processual

Após a distribuição, o primeiro ato processual é a marcação da audiência inicial, que geralmente ocorre entre 15 a 60 dias após o protocolo da petição. Esta audiência tem duas fases distintas: tentativa de conciliação e, se não houver acordo, a instrução processual.

Fases da audiência trabalhista:

  • Conciliação: O juiz tenta um acordo entre as partes
  • Defesa: A empresa apresenta sua contestação aos pedidos
  • Instrução: Depoimentos do autor, testemunhas e réu
  • Razões finais: Advogados fazem suas alegações finais

Na fase de conciliação, o juiz busca um acordo que seja satisfatório para ambas as partes. Muitos processos se encerram nesta fase, o que representa economia de tempo e garantia de recebimento imediato dos valores acordados.

Se não houver acordo, inicia-se a instrução processual. A empresa apresenta sua defesa, contestando os pedidos do trabalhador. Em seguida, são colhidos os depoimentos: primeiro do reclamante (trabalhador), depois das testemunhas de ambas as partes e, por fim, do reclamado (empresa).

Conciliação

Duração Média: 15-30 minutos · Objetivo: Buscar acordo entre as partes

Instrução

Duração Média: 1-3 horas · Objetivo: Colher provas e depoimentos

Razões finais

Duração Média: 10-15 minutos · Objetivo: Alegações dos advogados

As testemunhas são fundamentais para comprovar os fatos alegados, especialmente questões como jornada de trabalho, condições laborais e práticas da empresa. Cada parte pode levar até três testemunhas, que devem ter conhecimento direto dos fatos.

Sentença e recursos

Após a instrução, o juiz profere a sentença, que é a decisão de primeiro grau. Este momento pode acontecer na própria audiência ou ser marcado para data posterior, dependendo da complexidade do caso e da agenda do magistrado.

A sentença analisa cada pedido do trabalhador individualmente, julgando procedente (concedendo o direito) ou improcedente (negando o pedido). Também estabelece os valores devidos quando os pedidos são acolhidos, baseando-se nas provas apresentadas e na legislação trabalhista.

Prazos importantes após a sentença:

  • 8 dias: Prazo para apresentar recurso (Recurso Ordinário)
  • 8 dias: Prazo para apresentar contrarrazões ao recurso
  • 15 dias: Prazo para depósito recursal (quando exigido)
  • 30 dias: Prazo médio para análise pelo TRT

Se alguma das partes não concordar com a sentença, pode apresentar recurso ordinário ao Tribunal Regional do Trabalho. Este recurso deve ser fundamentado, apontando especificamente os pontos da sentença que devem ser reformados.

O Tribunal Regional do Trabalho julga o recurso em segunda instância. A decisão pode manter a sentença, modificá-la parcialmente ou reformá-la completamente. Em casos específicos, ainda é possível recorrer ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas com requisitos mais restritivos.

Execução e recebimento dos valores

Quando a decisão se torna definitiva (trânsita em julgado), inicia-se a fase de execução, momento em que os valores são efetivamente cobrados da empresa. Esta é frequentemente a fase mais demorada do processo trabalhista.

Primeiro, são realizados os cálculos de liquidação, que atualizam os valores da condenação com juros e correção monetária até a data do pagamento. Esses cálculos são apresentados pela parte vencedora e podem ser impugnados pela empresa.

Meios de execução utilizados pela Justiça do Trabalho:

  • Bloqueio de contas bancárias via sistema BACENJUD
  • Penhora de bens móveis e imóveis
  • Bloqueio de veículos via sistema RENAJUD
  • Penhora de faturamento da empresa
  • Inclusão em sistemas de proteção ao crédito

A execução trabalhista tem preferência sobre outros tipos de execução, o que facilita o recebimento dos valores pelos trabalhadores. O sistema BACENJUD permite o bloqueio imediato de contas bancárias, sendo o meio mais eficaz e rápido de satisfação do crédito trabalhista.

Se a empresa não possui bens suficientes para quitar a dívida, o processo pode ser suspenso e o nome da empresa incluído no cadastro de devedores trabalhistas. Em casos extremos, pode haver a desconsideração da personalidade jurídica para atingir bens dos sócios.

O tempo total de um processo trabalhista varia significativamente. Processos simples, sem recursos, podem ser concluídos em 6 a 12 meses. Já processos complexos, com recursos e dificuldades na execução, podem levar anos para conclusão final.

Quando seus direitos trabalhistas são violados e a empresa não demonstra disposição para resolver a situação amigavelmente, o processo judicial se torna necessário. Reúna toda sua documentação trabalhista e procure orientação de um advogado especializado em direito trabalhista, que poderá avaliar seu caso e orientar sobre as melhores estratégias para garantir seus direitos da forma mais eficiente possível.

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